Ele
então se encontrou frente a frente com a Morte. Sem saber o que
fazer, o que dizer, tentou argumentar com a figura que agora tendia a
se aproximar dele.
–
Quem é você?...Ou melhor o que...aonde? Como? Saía daqui...meu
Deus...
O
vulto encapuzado portava uma foice, a qual possuía um longo cabo de
madeira já meio gasto e uma parte metálica enferrujada como se já
a tivesse usado por várias vezes. Sem qualquer sinal de piedade a
Morte continua sua trajetória retilínea em direção a Pedro.
Desesperado, já sem muita imaginação do que fazer em uma situação
daquelas, ele tentou pensar em algo que já havia ocorrido com ele.
Algo do seu passado que o tirasse dali.
A
primeira coisa que veio em sua mente sobre fugas era as férias na
casa da Tia Gertrudes, as quais, ele vivia escapando daqueles doces,
considerados por ele, horrorosos. Sempre que ela aparecia
oferecendo-os (obrigando come-los) ele sempre corria, pulava a janela
que dava no galinheiro e acabava por subir na jabuticabeira que havia
na fazenda. Mas naquela situação, não havia janelas, galinheiros e
muito menos jabuticabeiras.
Então
tentou abordar algo mais concreto, algo de que ele fugia enquanto
mais velho. Contas? Ex-namoradas? Sogras? Chefes? Nada disso se
comparava a Morte. Algo tão sombrio, frio e calculista. Tentou então
pensar nas coisas boas que viveu, para pelo menos sentir em seu
último suspiro que valeu a pena. Lembrou então das namoradas, das
travessuras quando criança, do primeiro beijo, da sua primeira vez.
Esta última ele recordou com um sorriso, pois nem bem ele sabia como
considerar sua primeira vez. Ele lá, no carro, com dois amigos iam
experimentar pela primeira vez o sabor de ter uma mulher em uma cama,
mesmo que fosse paga.
Para
Pedro a ansiedade pulsava em suas veias, suava frio, não sabia como
agir ao ver aquela mulher nua em sua frente esperando que ele agisse.
Bom, um tempo depois ele ainda não havia conseguido agir, se é que
me entendem. Quando, finalmente, agiu além de não ter conseguido
chegar ao finalmente, não achou nada de mais, não sentiu uma mulher
naquela hora, foi frio, algo errôneo. Descartou essa vez, logo sua
mente buscou a segunda, que agora considerava a primeira. Uma balada,
primeira vez que bebia e com os mesmos dois amigos. Foram então
uísque, cervejas, tequila, vodka e caipirinha, já não relacionava
mais nada entre razão e loucura. Mas se lembrava bem daquele
cantinho com uma menina, na qual deflorou ali mesmo. Pena o outro dia
se lembrar tão pouco do que ocorrera e ter ficado com um peso na
consciência pelo fato de não usar camisinha (não façam isso em
casa). Tentou descartar mais uma vez, por não se lembrar. Então
recorreu-se a terceira, em casa, na sua cama, com a menina que amava.
Estava pronto a considerar, não fosse sua irmã ter ligado e
atrapalhado tudo que mal havia começado. Desistiu então.
Era
engraçado estar pensando naquilo aquela hora. Teve outros
pensamentos, escola, amigos, parentes mas nada o fazia saber o que
dizer naquele momento.
–
Olha,
eu não estou pronto para morrer....
A
Morte nunca pareceu tão perto, aquele sopro gelado, que saia do
cadáver vivo do vulto que os homens mais temem, parecia lhe tocar a
face. Realmente era verdade o que diziam sua vida passava inteira em
sua frente. Se arrependeu dos erros, se orgulhou dos acertos mas
havia algo que o magoava, fazia mais de dez anos que não falava com
seu pai. Uma briga boba mas com grandes ressentimentos.
–
Por
favor, me deixe viver, preciso me desculpar com meu pai.
A
Morte então levantou sua foice, em um rápido e fatal golpe...
–
Pedro....Pedro...acorda
Pedro, "ocê tá suanu" Pedro – disse Maria, empregada de
Pedro.
Pedro
então em um golpe rápido levantou, desnorteado e arrependido. Sem
mais explicações vestiu-se com qualquer roupa e saiu correndo de
seu apartamento. Maria que nada entendeu ainda tentou obter
explicações.
–
Pedro,
"ondé que cê vai minino"...
Pulava
de dois em dois degraus e ia descendo do décimo até o térreo,
trajeto que fez em menos de dois minutos. Disparou-se então para
casa de seu pai, nunca estivera tão certo do que queria, queria se
desculpar. Então ao atravessar a avenida sem olhar para nenhum lugar
que não fosse em frente (ainda assim vendo mas não enxergando pois
pensava no que diria). Pedro entrou na frente de um caminhão. Um som
estrondoso de buzina chamou sua atenção.
Ele
então se encontrou frente a frente com a Morte. Sem saber o que
fazer, o que dizer...
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