– Conforme
havia dito, o Senhor não tem muito tempo de vida.
–
Doutor,
escuta uma coisa, não tem essa 'pô'! Tenho muito que viver as
alegrias da vida, mulheres, festas, jogos do Galo...
–
Infelizmente...
–
Felizmente!
'Poxa' Doutor, tenho trinta e três, me dê notícias mais positivas.
–
Repita.
–
Felizmente...
–
Não,
trinta e três.
–
Trinta
e três?
–
É,
não tem jeito. Já analisei, já fiz uma reanálise, entretanto, o
Senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito
infiltrado.
–
Mas
Doutor, eu não faço a mínima ideia do que é que seja isso. Parece
algo que vou levar para o resto de minha vida, algo terminal. E
Doutor, eu odeio coisas assim. Filhos, casamento, emprego...
O
Doutor pensou, resolveu dar um conselho mas não sabia o que dizer.
Pesando suas palavras, disse:
–
É
bom fazer um seguro de vida.
–
Não,
não. Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da
nossa miséria.
–
Machado?
–
Está
louco!? Eutanásia eu até que entendo mas isso aí já é homicídio
Doutor, ainda me resta um tempo por menor que seja.
–
Não,
a frase. De Machado de Assis.
–
Ah....sim,
sim.
–
Se
tiver algo mais que eu possa fazer?
–
Acho
que não.
–
Descanse
muito, faça as coisas de que mais gosta e vou ser sincero. Se voltar
ao consultório além de gastar dinheiro, vai me fazer te consultar a
toa.
–
Doutor,
Doutor, minha cantiga é mais triste...
–
Essa
eu já conheço. Mas te digo que ainda resta uma coisa a se fazer.
Então
ele perguntou esperançoso:
–
O
quê, Doutor?
–
Tocar
um tango argentino.
–
'Poxa',
não pode, pelo menos, ser Chico Buarque?
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