O
relógio já batia tarde da noite. Na casa, um misto de torpor e
desesperança pairava no ar. Eu ali deitado ao chão, não me lembro
muito bem se de costas ou de barriga, me recordo apenas que parte da
minha perna jazia em cima do sofá carcomido. Eu observava avoado um
imenso bloco de concreto que costumamos chamar de teto. Mas apesar do
que se pensa eu não observava em pleno silêncio, enquanto me
quedava quieto a olhar meus ouvidos captam talvez pela quarta, quinta
vez (sinceramente não me recordo, novamente) Chico dizendo que
estava a toa na vida. No meu caso, ao contrário do magnífico de
Holanda, era a vida que parecia estar a toa em mim. Mas enfim,
voltando ao teto, que nunca me parecera tão perto e tão nítido. Eu
conseguia enxergar cada rachadura, imperfeição e parte mal pintada,
as quais, me passaram por anos desapercebidas. Para lhes ser sincero,
nem tanto, as rachaduras em dia de chuva não paravam de pingar gotas
d'água, como se o teto chorasse pedindo por alguma atenção.
Lágrimas que sempre acabavam em uma panela ou bacia. Como era
maltratado o teto, algo tão essencial, que me digam uma casa sem
teto! Como era carente de atenção, solidão que talvez pudesse ser
resolvida com alguns olhares por dia. Em meio a minha reflexão sobre
o lado emocional do teto, um som peculiar começou a chegar a meus
ouvidos, na hora figurei várias hipóteses mas a que mais me pareceu
normal era a de que era o telefone. Comecei então a travar uma briga
contra revistas e almofadas para abrir caminho até o som. Que vinha
aumentando gradualmente. Atendi e antes mesmo que pudesse falar algo
uma voz familiar saio expelindo palavras ligeiras:
–
Meu
amor, desculpa ser tão grossa e não cumprimentar nem nada mas é
que eu não aguento mais essa briga entre nós dois, quero acertar
tudo sabe? E eu acho...
–
Querida?
–
Oi?
Pode falar o que quiser.
–
Você
já prestou atenção no teto?
– Que?
Não acredito! Você bebeu outra vez não foi? Pelo amor de...
E
a partir daí parei de prestar atenção na voz dela mas posso
garantir que algumas palavras de baixo calão foram ditas. Comecei
então a mirar meus olhos pela sala, sem mexer a cabeça ou tirar o
telefone do ouvido. A música ainda tocava alto, peças de roupa pelo
chão, comidas (das mais diversas) pelo sofá, revistas e almofadas
espalhadas como corpos depois de uma guerra, pitos de cigarro faziam
companhia na mesinha hà uma garrafa de uísque, que beirava o final.
Deixei o telefone em algum lugar (Não devo ter desligado caso o
contrário ela teria me ligado outras vezes). Sem mais direcionei-me
a minha cama. Como deitei? Se de costas ou de barriga pouco
importa. Só recordo-me que comecei a ouvir a chuva lá fora. No
mesmo instante pensei cansado comigo, onde é que eu coloquei as
panelas?
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