Enquanto
suas mãos desciam carinhosa e calorosamente por entre o corpo
feminino, Paulo sentia que havia algo de errado. Mas como? Seu tato
lhe dizia que não haviam estrias, celulite ou imperfeições. Muito
ao contrário, possuía uma das mais belas feições vistas por reles
mortais. Seios fartos, barriga torneada, beiços carnudos e glúteos
estonteantes. Mesmo assim algo lhe dizia para agir com a mais extrema
perícia. Loira dos olhos azuis em brasa, beijo envolvente e ardente,
palavras sujas ao pé do ouvido e o mais importante, sem sutiã.
Agora
suas pretensões falavam mais alto que a razão. Já a beijava
loucamente, abriu a porta do quarto como se já conhecesse o quarto
dela, mesmo que fosse a sua primeira vez nele. Deitou-a na cama,
arrancou-lhe a blusa e a beijou novamente. Então como se em um
relance de milésimos de segundo, surgiu em sua cabeça a palavra
carnaval. Não podia negar que era carnaval, ouvia a multidão a
cantar marchinhas, as buzinas, o trio elétrico e os tantos papéis
que cintilavam no ar lá fora. Até a recorrida música de Chico o
cantarolou na mente, "Estou me guardando para quando o carnaval
chegar...”
As
suspeitas de que havia algo de errado com o ser que aconchegava-se
abaixo dele aumentaram. Só havia um jeito de descobrir se era uma
mulher realmente. Sua mão agora descia mais ligeira e contornava o
abdômen da suspeita mulher. Mas algo prendeu suas mãos antes de
chegar. Era ela o segurando e como se soletrasse letra por letra, o
disse:
-
Jura que me ama.
Ele
hesitou. Não podia jurar que a amava, primeiro por não amar e
segundo por não saber se tratava do mesmo sexo que o dele.
-
Juramentos são eternos, não se jura em uma noite.
Bem
pensado, ele rapidamente disse a si mesmo.
-
Nem que seja por uma noite, jura que me ama.
As
mãos dela o apertavam mais forte, impedindo totalmente a passagem
para o prêmio final.
-
Quer mesmo ouvir?
-
Muito.
Pensativo
caminhou com sua pupila por todo o quarto. Resolveu arriscar.
-
Juro.
Como
se ela o disse-se, naqueles letreiros digitais, "Siga em frente
e boa viagem", carinhosamente tocou e afagou a mão de Paulo
abaixo. Fisicamente sua mão continuou a descer por inércia até
chegar aonde queria. Foi lá que teve a certeza que nada havia de
errado. Gozou tanto de saber que ela era do sexo oposto que quase
soltou um grito de eureka. Foi assim que se amaram por quase uma
noite inteira de carnaval. Os gritos e o trio elétrico já não
pareciam tão audivelmente altos, agora sua pupila é quem cintilava
brilhante por entre a córnea. Depois de ambos contentemente
saciados, Paulo disse:
-
Foi magnífico. E pensar que ainda pude duvidar que havia algo de
estranho ou errado.
-
Como assim?
-
Fiquei meio inseguro de continuar com você, algo me dizia que não
deveria mas por sorte não ouvi.
-
Concordo com você, ia perder uma noite e tanto.
-
Se ia. Tem algum cigarro?
Ela
então o estendeu um maço e ele espertamente saltou um cigarro, já
o emendando à boca. Após acender o cigarro, ele ajeitou-se na cama
e começou a deleitar-se com o momento. Mas algo o chamou a atenção,
um barulho de porta meio ao longe se misturou com a euforia lá fora.
Sem muitas preocupações, Paulo perguntou:
-
Ouviu isso?
Barulho
de passos apareceram e tornavam-se mais frequentes.
-
Relaxa, é apenas o meu marido.
-
MARIDO? – bradou Paulo pasmo – Você não me disse que tinha um
marido!
Então
uma voz grossa rompeu o quarto e chegou aos tímpanos de Paulo.
-
Nem disse que ele além de marido, é delegado.
A
partir de então Paulo aprendeu a nunca mais duvidar de suas
intuições.
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